Os "Unknown Unknowns" da Aviação Executiva
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Em 2002, o então Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, foi questionado em uma coletiva de imprensa sobre supostas evidências de armas de destruição em massa no Iraque. A resposta dele se tornou famosa – e por anos foi motivo de chacota na imprensa, que a via como uma manobra retórica para fugir de uma pergunta incômoda:
"Há coisas que sabemos que sabemos. Sabemos também que há coisas que não sabemos — os known unknowns. Mas há ainda as unknown unknowns: aquilo que não sabemos que não sabemos."
Décadas depois, a frase deixou de ser piada e passou a ser ferramenta. Hoje aparece em manuais de gestão de risco, em currículos de tomada de decisão sob incerteza, em qualquer área que precise lidar com o problema mais traiçoeiro que existe: não o que você ignora, mas o que você nem sabe que existe.
Eu vivi isso na pele quando entrei na aviação executiva.
A pergunta que ninguém sabia responder
Eu já era piloto havia anos, com experiência em voos VIP. Sabia operar aeronaves, sabia de regulamento, sabia de procedimento. O que eu não sabia (e logo descobri) é que aviação civil é um universo regulatório próprio, com lógica, documentação e armadilhas que minha experiência anterior não cobria.
A primeira evidência disso veio cedo. Fomos receber um Phenom 300 na fábrica da Embraer, e fiz uma pergunta que parecia simples: quais são os documentos de porte obrigatório a bordo de uma aeronave? Ninguém soube responder com exatidão. Algumas pessoas citaram o RBAC 91 – não tenho certeza se realmente acreditavam nisso ou só queriam ajudar de alguma forma. De qualquer maneira, estava longe de ser a resposta certa.
E aí está o ponto que mais me marcou: essa informação não está condensada em lugar nenhum. Não existe um manual único que, se o piloto ler, vai saber de tudo. Os regulamentos de aviação são complexos e estão espalhados em dezenas de publicações – RBAC, IS, ICA, AIC, regulamentos internacionais, manuais do fabricante, exigências específicas de cada operação. Cada um traz um pedaço. Ninguém tem o quadro completo.
Pouco tempo depois, vivi a mesma cena por outro ângulo: alguém me perguntou se já havíamos providenciado o CBP Decal — uma exigência do USA CBP para aeronaves que operam para os EUA. Eu já tinha voado o mundo todo. Mas aviação militar tem regras diferentes da civil, e essa diferença não aparece em nenhum lugar até que alguém pergunte, na sua cara, algo que você nunca soube que precisava saber.
Assim surgiu a Jinkout
Foi exatamente essa experiência repetida, de descobrir lacuna depois de lacuna, sempre me sentindo atrasado, que me fez criar a Jinkout.
A inspiração veio da Aviação de Caça. Jinkout é a manobra de mudanças bruscas de direção, alternando G positivo e negativo, usada por quem quer escapar de um caçador que tem a vantagem no combate. Para mim, a burocracia aeronáutica é exatamente esse caçador: ela tem vantagem porque está espalhada, fragmentada, escondida em dezenas de fontes diferentes, enquanto o piloto, sozinho, voa tentando adivinhar onde está a próxima surpresa desagradável.
A Jinkout existe para inverter essa vantagem. Não porque tenhamos lido todos os manuais (na verdade, ninguém leu, porque eles não existem reunidos em nenhum lugar, e vivem mudando), mas porque já tropecei nessas lacunas o suficiente para saber onde elas costumam estar. Nossa empresa conhece muito de muita coisa; ninguém, porém, conhece tudo de tudo – e é justamente por aceitar esse limite que sabemos onde procurar quando a pergunta é nova. Todas as LOA, MEL, NEF, Manuais de Inspeção de Rampa, Cursos de RVSM e GRF, Border Overflight Exemption: cada um desses documentos representa um "unknown unknown" que algum operador, em algum momento, descobriu que precisava saber.
O que essas lições me ensinaram
Como pilotos, somos treinados a respeitar os limites do que sabemos. Checklist existe para isso: não confiar na memória, confirmar o que já devia estar confirmado. É assim que lidamos bem com os known unknowns – como sabemos que existem, preparamos procedimento para eles.
Mas o risco real muitas vezes não está ali. Está, como dizia Rumsfeld, naquilo que não sabemos que não sabemos. E contra isso não existe checklist pessoal que baste, porque, por definição, você não sabe o que deveria estar perguntando.
A única manobra que funciona contra esse tipo de risco é contar com quem já foi pego de surpresa antes de você. É essa a aposta da Jinkout: transformar tropeço em solução, para que o próximo piloto não precise descobrir sozinho, na pior hora possível, aquilo que ele nem sabia que tinha que saber.





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