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Aviação executiva: a habilidade de se comunicar com seu chefe é tão importante quanto pilotar

  • 10 de set. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de abr.


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  • Já fui para Chapecó antes. O que mudou para impedir o nosso voo?

  • Por que não podemos levar todos os passageiros? Já cruzamos o Atlântico com todos os assentos ocupados.

  • Já pousei em Canela com um avião desse modelo. Por que não podemos ir?

 

Essas perguntas refletem eventos reis. Em verdade, esses são desafios relativamente comuns na vida de um piloto da aviação executiva. O problema é que esse tipo de situação pode se tornar uma armadilha. Um antigo chefe, muito apropriadamente, alertava sobre o risco de se fazer pequenas concessões: “a exceção é o caminho da perdição”. Uma vez aberta a porta, dificilmente você conseguirá fechá-la.

 

As Competências de um Piloto Profissional

A capacitação de um piloto requer competências em diferentes áreas. As mais visíveis são as técnicas: a pilotagem propriamente dita, uso da automação, conhecimento profundo dos sistemas da aeronave, aerodinâmica, navegação, regulamentos, performance, meteorologia e tantas outras. Além dessas, outras competências, como liderança, CRM, administração de contratos, proficiência em inglês e gerenciamento de manutenção são essenciais para formar um bom Comandante, principalmente na aviação executiva.

 

Ao longo da carreira, o piloto desenvolve suas habilidades em um ambiente onde a comunicação é facilitada, pois todos compreendem o “avionês”. Jargões, siglas e termos técnicos são comuns e bem entendidos. No entanto, isso se torna um problema quando o piloto precisa explicar ao chefe por que não é possível operar como ele imagina – ou, pior, quando isso já foi feito antes. Essa habilidade não é ensinada em aeroclubes nem consta em qualquer IS da ANAC.

 

Muito posso, mas nem tudo me convém

Um bom piloto sabe que existem condições de operação que, embora não se constituam em limitações formais, aumentam significativamente o risco. Assim como seguradoras exigem apólices com critérios mais rigorosos do que os previstos nos regulamentos e manuais de voo, a operação de uma aeronave requer cuidados que vão além do que está escrito. Cabe ao piloto avaliar todas as condições e variáveis, para assessorar o proprietário e decidir se a operação proposta é segura.

 

“Obrigado pela informação que você não me deu”

A principal razão para um executivo adquirir uma aeronave é otimizar um de seus ativos mais importantes: o tempo. Por isso, as oportunidades de conversa devem ser muito bem aproveitadas no pouco tempo que lhe é concedido.


Não adianta tentar convencê-lo usando jargões, gráficos ou termos excessivamente técnicos. Essa linguagem funciona no hangar, mas não com todos. O foco de um executivo está no nível estratégico da empresa. Raramente alguém nesse patamar compreende a complexidade envolvida na preparação e execução de um voo, mas é fundamental que os pilotos tornem as informações simples, relevantes e diretas.

 

Para fazer bom proveito do tempo, o primeiro passo é definir a mensagem principal. Falar em excesso diluirá o foco em meio a informações que não interessam ao executivo. Distinguir o essencial começa por reconhecer o que pode ser omitido: aquilo que seu chefe não precisa saber.

 

Se você acredita em sua proposta, demonstre firmeza

Certa vez, trabalhei com um chefe muito rígido. A maioria das pessoas tinha receio de falar com ele. No entanto, aqueles que sustentavam seus pontos de vista com argumentos sólidos eram respeitados (embora ele raramente fizesse elogios). Ao tratar de questões delicadas, esteja preparado para justificar por que não é recomendada determinada operação. Baseie-se nas limitações dos manuais, nas condições das apólices de seguro, em relatórios de acidentes e nos regulamentos aeronáuticos – ou seja, em tudo o que servir para fundamentar sua decisão.

 

Evite apenas dizer “não”. Substitua negativas por “sim, desde que...” ou “há uma alternativa, que é...”. Seja firme. Isso conquistará a confiança do seu chefe, que apreciará essa postura. Lembre-se de que lealdade não é dizer o que o chefe quer ouvir, mas o que você julga ser o melhor para ele e para a empresa.

 

Aproveite seus três minutos

Compreendendo a necessidade de ajustar a linguagem, respeitar limites e regulamentos, identificar pontos críticos e inspirar confiança, aproveite ao máximo os poucos minutos que terá para explicar ao seu chefe por que não é possível atendê-lo como ele deseja. Em vez de gráficos e tabelas, mencione o porquê de existir essa limitação, os riscos envolvidos e como evitá-los – afinal, diferentemente do “avionês”, risco e segurança são termos facilmente compreensíveis por qualquer executivo de alto nível.

 

Guarde a lei e a lei te guardará

Um piloto profissional conhece e respeita a premissa que estabelece que, acima do conforto e da rapidez, está a segurança. Ao explicar ao seu chefe por que uma operação não é recomendada, reforce que não vale a pena aceitar desafios quando as margens de segurança são estreitas.

 

Nos exemplos mencionados no início deste texto, ceder à pressão poderia resultar na aeronave afundando no pátio, na incapacidade de alcançar um aeródromo alternativo em caso de pane ou na impossibilidade de manter a aeronave na pista se houver uma abortiva de decolagem. “Sempre deu certo”, até o dia em que der errado.

 

É fundamental que o piloto conquiste a confiança do chefe, o que só ocorrerá se ele souber oferecer aconselhamentos confiáveis, baseados na verdade. Muito além de pilotar, o Comandante deve ser visto como o guardião dos valores mais preciosos que lhe são confiados: a vida do proprietário, de seus familiares e colaboradores.

 
 
 

6 comentários


Convidado:
14 de set. de 2024

Texto sucinto e carregado de conteúdo.

Tenho defendido essa tese desde sempre. E quando há oportunidade, também oriento aos pilotos recém-chegados na Executiva. O problema não é a palavra “não.” Ela é respeitada. Mas a palavra tem que trazer no seu encalço a palavra “alternativa” para que cumpra seu compromisso.

Parabéns pelo artigo!

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Membro desconhecido
15 de set. de 2024
Respondendo a

Concordo 100% com suas observações. Aquele que não pensa em possíveis alternativas acaba por se sentir pressionado a aceitar riscos desnecessários, justamente pela dificuldade de dizer "não".

Obrigado pelo comentário.

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Convidado:
11 de set. de 2024

Muito bom Beal! Parabéns!🔝

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Membro desconhecido
15 de set. de 2024
Respondendo a

Muito obrigado pelo apoio. Abraço!

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Membro desconhecido
11 de set. de 2024

Excelente artigo Comandante!

Claro e preciso, como sempre!

Parabéns!

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Membro desconhecido
15 de set. de 2024
Respondendo a

Obrigado, caro amigo. Forte abraço!

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