“Um Nível Equivalente de Segurança não pode ser demonstrado”: a realidade sobre a proposta de apenas um piloto na cabine
- 20 de jun.
- 2 min de leitura
Por anos, a indústria da aviação tem ensaiado a ideia de reduzir o número de pilotos a bordo de voos de longo curso, com promessas de eficiência impulsionada pela automação.
O conceito de Operações Estendidas com Tripulação Mínima (eMCO) – em que apenas um piloto permanece no cockpit durante o cruzeiro, enquanto o outro descansa – ganhou força nos últimos anos, especialmente entre fabricantes de aeronaves.
Mas agora, o relatório final de avaliação de riscos da EASA veio para jogar um balde de água fria na empolgação.
“Um nível de segurança equivalente não pode ser demonstrado.”
Essa é a conclusão oficial do estudo, após simulações, entrevistas, análise técnica e ensaios em simuladores.
O Que é o eMCO?
O eMCO visa formalizar algo que já autorizado por algumas agências regulatórias, de forma limitada: o descanso controlado de um dos pilotos durante o voo de cruzeiro. Porém, diferente do descanso atual (curto, com o outro piloto alerta e suporte de cabine), o eMCO prevê períodos mais longos e estruturados com apenas um piloto ativo — confiando em automação avançada, sistemas de monitoramento e protocolos atualizados.
Como fica a Segurança?
O relatório identificou três grandes áreas onde os riscos não podem ser mitigados com a mesma eficácia das operações com dois pilotos:
Detecção de Incapacitação do Piloto (Pilot Incapacitation)
Hoje, nenhum sistema tecnológico tem a mesma capacidade de um segundo piloto humano para detectar sinais sutis (ou súbitos) de incapacitação. Câmeras, sensores, protocolos de cabine… tudo ainda está aquém do requerido.
Cheque-cruzado (Cross-checking):
A ausência de um colega para confirmar ações e decisões deixa o piloto vulnerável a erros não detectados. Em situações críticas, essa lacuna pode ser decisiva.
Inércia do Sono:
Após acordar de um descanso prolongado, o piloto pode levar até 35 minutos para recuperar sua plena capacidade cognitiva. Durante esse tempo, ele não deve tomar decisões nem assumir o controle da aeronave — o que é incompatível com muitos cenários de emergência.
O Que Dizem os Pilotos?
Nos simuladores, os pilotos relataram desconforto ao operar sozinhos em condições adversas. Muitos não respeitaram os tempos mínimos de recuperação após o descanso — uma evidência de que o “comportamento real” pode divergir bastante do ideal previsto nos manuais.
Em uma das simulações, um erro na escolha de aeroporto alternado só foi corrigido depois que o segundo piloto voltou ao cockpit, ilustrando o valor do trabalho em equipe — ainda insubstituível.
E Agora?
Mesmo que o eMCO traga promessas de economia e otimização de tripulações, o recado da EASA é claro: a tecnologia atual não garante a mesma segurança das operações com dois pilotos na cabine.
O conceito não está descartado — mas o “ônus da prova” agora é dos proponentes. Até que seja possível replicar o julgamento, a vigilância e a coordenação humana com precisão tecnológica… o flight deck ainda contará com dois pilotos.
O relatório completo está disponível em https://www.easa.europa.eu/en/research-projects/emco-sipo-extended-minimum-crew-operations-single-pilot-operations-safety-risk






Comentários